O adeus de Vieira da Silva
Vieira da Silva é a baixa mais arriscada do Governo. Deixa os cofres cheios mas uma discussão muito séria por fazer
A saída do Governo de Vieira da Silva é natural, importante e preocupante. Natural porque pediu para sair e tem funções de Governo há muitos anos; importante porque retira do Executivo um político competente e seguro; preocupante porque sai depois de um período em que o tema da Segurança Social deixou de ser discutido. Na época do resgate, o tema foi debatido de forma unilateral e obsessiva: não havia dinheiro, e a Segurança Social estava destinada a definhar aceleradamente. Fez-se a gestão corrente de uma crise agudíssima, colocando o futuro numa perspetiva de cortes inevitáveis, o que acabaria por escancarar a porta a uma “privatização” parcial do sector. O Governo do PS pecou pelo mesmo defeito, embora nos antípodas. Concentrou-se em demonstrar que o crescimento do emprego tinha um (duplo) efeito brutal no aumento das receitas e na diminuição dos subsídios. Em simultâneo, alargou as fontes de receita da Segurança Social. Com isso fez um brilharete nas contas,
tentando mostrar que não há inevitabilidades nesta frente. Vieira da Silva tem uma qualidade que escasseia nos ministros: conjuga força política com uma segurança técnica inabalável. Quando, para desespero do Bloco e do PCP, se recusou a mexer nos principais eixos da legislação laboral da troika, sabia que tinha de dar prioridade ao crescimento rápido do emprego. Foi sempre o ministro mais duro nas negociações à esquerda e o mais desejado pelos patrões. Quais foram os grandes defeitos de Vieira da Silva? O primeiro é evidente: o sistema informático da Segurança Social é uma anedota, sobretudo quando comparado com o Fisco. O segundo, mais sério, foi o de ter anestesiado qualquer debate sobre o futuro da Segurança Social. A política portuguesa, como em quase todas as democracias, está capturada por discussões que interessam a quem tem mais de 40 anos. É urgente que os temas sejam discutidos aos olhos de quem hoje tem 18, 25 ou 35 anos. A esses, muito mais do que uma “sustentabilidade de caixa”, interessam outros olhares. Temos uma projeção demográfica trágica, uma imigração que não compensa o envelhecimento, salários médios muito baixos, riscos elevados de robotização e inteligência artificial, pressão das plataformas tecnológicas para trabalho à jorna, necessidades de formação... A saída de um ministro tão seguro é um risco enorme. Mas o maior risco será não aproveitar os cofres estarem cheios para falar do futuro e dos mais jovens
rcosta@expresso.impresa.pt
Sem comentários:
Enviar um comentário